Ricardo Molina: “o basquete feminino brasileiro é maravilhoso e sempre será”

19.11.2019   |   Entrevistas
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O presidente da Liga de Basquete Feminino (LBF), Ricardo Molina, tem participação importante no reerguimento do basquete feminino nacional, que tem mostrado a sua força nas recentes competições, com conquistas e por estar na briga direta para chegar aos Jogos Olímpicos de Tóquio. Com uma gestão arrojada e calcada em conceitos modernos, Molina, que caminha lado a lado com a atual gestão da Confederação Brasileira de Basketball (CBB), tem feito a LBF crescer a cada temporada, cuidando bem de todos os aspectos, seja dentro ou fora da quadra.

Confira um pouco das suas ideias, objetivos e ações na entrevista a seguir...

CBB: como o basquete entrou na sua vida?

Ricardo Molina: desde que estava na barriga da minha mãe. Minha família sempre foi muito envolvida com o esporte, graças a Deus, e por eles fui incluído muito rapidamente em modalidades diferentes, entre elas o basquete. A partir de 13 anos já encarava como uma profissão quando jogava profissionalmente na extinta equipe de Jales, interior de São Paulo. Assim foi até 17 anos. Foi quando pesou a necessidade de dedicar mais tempo à faculdade e ao ingresso no mercado tradicional de trabalho. Fiquei mais de 10 anos como torcedor e admirador da modalidade, na TV ou nas arquibancadas. Até que em 2006 voltei como dirigente no basquete feminino de Americana.

CBB: e como foi assumir a função de dirigente no basquete feminino?

Ricardo Molina: na verdade, veio por amor. Fui contrato pela Unimed de Santa Bárbara D'Oeste, Americana e Nova Odessa para atuar como gestor de Produtos, Negócios e Marketing. Sabia que a cooperativa tinha a ADCF, clube que fazia a gestão do basquete feminino na cidade. Naquele momento tínhamos 200 crianças no projeto social e as categorias de base. A equipe adulta estava desativada. Então pedi a Unimed se eu poderia assumir a gestão do basquete feminino de forma voluntária e propus uma renovação e ampliação do projeto. Eles aceitaram.

Foto: Divulgação

CBB: como você analisa o trabalho desempenhado no basquete feminino de Americana?

Ricardo Molina: paixão pura, muita luta e conquistas imensuráveis. O objetivo era ampliar o número e crianças no projeto social e para isso a reativação da equipe adulta era fundamental. Não foi nada fácil. Me lembro que nos dois primeiros anos era um time em formação, com três ou quatro jogadoras adultas. Mas depois começou a encorpar, vieram os patrocínios e quando menos imaginávamos os títulos começaram a aparecer. Foram 23 conquistas em 10 anos, de duas vezes campeão Sul-americano, quatro edições de sete possíveis da Liga de Basquete Feminino, além de campeonatos paulistas, Jogos Abertos e Regionais. Ampliamos o projeto social para Santa Bárbara d’Oeste e Nova Odessa, onde também levamos a equipe adulta para treinar e jogar. Atingimos mais de 1.500 crianças de 07 a 17 anos nas três cidades. Ali tive a certeza que havíamos transformado Americana na capital do Basquete Feminino.

CBB: você chegou a presidência da Liga de Basquete Feminino (LBF) em um momento delicado. Como foi o trabalho de recuperação da entidade e o que almeja para o futuro?

Ricardo Molina: foi muito complicado e delicado. Estávamos junto com a LNB (Liga Nacional de Basquete) e com patrocínio da CAIXA, porém com seis equipes. Nós da LBF defendíamos o conceito de que era necessário subsidiar custos das equipes. Foi por essa decisão que seguimos voo solo. Começamos realmente do zero a LBF, agora na cidade de Americana. Tive que montar uma nova equipe de trabalho, desenhar novos processos, estruturar tudo novamente, porém com conceitos baseados em gestão profissional. Não foi fácil, mas confesso que é um orgulho ver como erámos há dois anos e como estamos hoje. Posso garantir que hoje a LBF está pronta para voos mais altos e o futuro será ainda melhor, com Liga de Desenvolvimento já para o segundo semestre de 2020 com a parceria da CBB e do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC).

CBB: a sua administração na LBF vem sendo calcada em três pilares; dê uma breve explicação sobre isso. E quanto a sua experiência como empresário de sucesso tem ajudado na gestão esportiva?

Ricardo Molina: existe uma conduta no esporte que quando muda o presidente, a nova gestão praticamente precisa começar do zero e se perde uma oportunidade de evolução. Abomino quem faz gestão para si próprio e não para entidade e a longo prazo. Por isso decidimos por excluir remuneração ao presidente da entidade. A proposta de uma gestão profissional é justamente para que haja uma evolução natural, independente de quem é o presidente. Os pilares que criamos são a forma de norteamos nossas ações. Primeiro, o Pilar da Transparência: abrindo a LBF para qualquer um conhecê-la, sem caixa preta e qualificando nosso projeto com a primeira certificação ISO 9001 do basquete. O segundo Pilar, do planejamento: é impossível qualquer equipe atuar de forma organizada em uma liga sem o mínimo de planejamento e fizemos isso para três anos. E, não menos importante, decidimos que 70% da receita da LBF vai para os clubes no modelo de contrapartida (terceiro pilar), onde subsidiamos custos como arbitragem e passagem e os clubes nos entregam importantes pontos para o desenvolvimento do campeonato e para ele próprio, como transmissão web, mascotes, piso de quadra adequado e outros.

Foto: Divulgação

CBB: quais serão as novidades a serem implementadas na próxima edição da LBF?

Ricardo Molina: é uma edição especial, dez anos. Queremos inovar, como já fizemos no 1º torneio de enterradas feminino, primeira liga com transmissão 100% dos jogos, Troféu MVP para todas partidas e LBF nas Escolas. Com certeza podem esperar mais novidades. Gosto e estimulo a todos a pensar “fora da caixinha”.

CBB: a LBF tem realizado um trabalho próximo da atual diretoria da Confederação Brasileira de Basketball (CBB). Em quais pontos essa união tem auxiliado no refortalecimento do naipe feminino nacional?

Ricardo Molina: vou explicar da forma simples de entender. Com a gestão anterior, enquanto seu ex-presidente, diretores e gerentes acabavam com o basquete feminino, todos os clubes do Brasil e a LBF carregam a modalidade das costas. Nós puxamos a corda para um lado e eles para outro, mas sobrevivemos e crescemos. Agora imagina você tendo as duas entidades, LBF e CBB, puxando para um lado só, o que podemos esperar? Trabalho, resultado e respeito ao nosso basquete feminino que tanto pedíamos. A atual gestão da CBB e que me refiro ao Marcelo Sousa, nosso contato direto, fez o que precisávamos, respeitou a nossa entidade, os clubes e atletas. Evoluímos e felizmente hoje nossas decisões são em conjunto para o bem de um único basquete feminino, o do Brasil.

CBB: e como você analisa a atual gestão da Confederação Brasileira?

Ricardo Molina: assumiram uma "bucha" administrativamente e moralmente enorme. Sinceramente, fizeram chover em pouco mais de dois anos. Não é tão fácil gerir uma confederação quanto imaginamos. Estávamos proibidos de participar de competições internacionais, com inúmeros processos e taxados de mal pagadores. Tem noção que os caras reverteram isso em dois anos? Só tenho a parabenizá-los, tanto o presidente Guy Peixoto Jr, Marcelo Sousa, Carlos Fontenele, Ricardo Trade (Baka) e toda equipe por esse trabalho que é muito mais interno que externo. Estão alicerçando a CBB, assim como fizemos na LBF.

Foto: Divulgação/lbf

CBB: como foi promover a inédita disputa de enterradas no Jogo das Estrelas da LBF? Outras novidades, perspicazes como essa, podem surgir futuramente em eventos da entidade?

Ricardo Molina: quando posso peço sempre as pessoas que estão ligadas ao basquete pensarem “fora da caixa”. Precisamos ter coragem em ousar, criar e inovar. Existe sempre resistência, normal. Mas precisamos persistir. Quando falei de torneio de enterradas feminino quase apanhei (risos). Imagina hoje tirar o torneio de enterradas do Jogo das Estrelas? As jogadoras gostam, o público adora, patrocinadores; então, por que não fazer? Gosto e sempre vou provocar por inovações, por mais malucas que possam parecer.

CBB: aliar o esporte ao lado social é sempre importante. Que análise pode fazer as ações sociais realizadas pela LBF?

Ricardo Molina: o esporte, na minha opinião, tem uma grande parcela a contribuir no lado social, escolar e de saúde por onde atua. Na LBF, entendemos ser importante que as equipes atuem de forma social e educacional em suas respectivas cidades. Através das atletas de cada clube, precisamos encorajar a criança a procurar pelo esporte, seja qual for a modalidade. Temos isso no LBF Social. Dois anos atrás lançamos o LBF nas Escolas onde literalmente entramos nas escolas públicas através dos clubes e atletas e incentivamos a pratica do esporte. Temos que dar nossa contribuição, e fazemos com prazer!

CBB: você viveu recentemente uma experiência na área política. Está nos seus planos seguir, já que seria importante para o basquete ter um representante nessa esfera?

Ricardo Molina: sim, foi a primeira vez no ano passado. Quero ter a oportunidade de tratar alguns assuntos como o esporte no “atacado”, direto na fonte, onde saem as grandes decisões. Sempre que posso, provoco as pessoas do BEM a participarem da política. Ou damos nossa parcela de contribuição ou iremos reclamar para o resto da vida. A política precisa de pessoas do BEM e quero sim participar e lutar pelos temas mais importantes da sociedade.

Foto: Divulgação

CBB: mensagem final:

Ricardo Molina: três anos atrás, nossas atletas, as mesmas que hoje são Campeãs dos Jogos Pan-americanos e estão classificadas para o Pré-olímpico Mundial, perderam todos os jogos nas Olimpíadas, perderam para Argentina em sul-americano, Cuba, Porto Rico e Colômbia. O que mudou se são as mesmas atletas? Mudou o respeito por elas e pelo trabalho delas. Mudaram-se dirigentes desrespeitosos com a nossa modalidade. Elas sempre foram vitoriosas! Atletas e clubes nunca abandoaram o basquete, assim como projetos sociais e trabalhos de base fantásticos em todo país. O basquete feminino brasileiro é maravilhoso e sempre será. Temos sim um ótimo basquete feminino. Parabéns Meninas, vocês são nossa alegria.

Frederico Batalha

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