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24/03/2017 - Moysés Blás

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Ele convive com a emoção de ter sido o primeiro Minastenista Medalhista em Jogos Olímpicos. O ex ala-armador Moysés Blás fez parte da equipe considerada a maior e mais vencedora geração de atletas e técnicos que levaram o Brasil à elite do basquete mundial. No dia em que completa 80 anos, o ex-jogador relembra momentos marcantes em sua trajetória esportiva, iniciada nas quadras mineiras, onde executou suas primeiras “bandejas” em 1949, na equipe infantil, após uma rápida passagem pelo vôlei, sob a direção do técnico Antenor Horta. Em seguida foi integrar a equipe Juvenil. Em 1955, foi convocado veio a convocação para participar do Campeonato Sul-Americano juvenil, em Cucutá, na Colombia, sob a direção técnica do ex–craque José Simões Henriques. A partir daí Moyses passou a integrar as listas de convocações da CBB e participou daquela que foi a trajetória vitoriosa do basquete brasileiro, coroada com a subida ao pódio na - XVII Olimpíada de Roma, em 1960.
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Como foi a sua trajetória no Minas Tênis Clube?

Moysés – A minha vida toda foi dentro no Minas Tênis. Migrei do vôlei para o basquete e aos 13 anos iniciei no infantil. Passei por técnicos que me orientaram muito em quadra e fora delas. A orientação sempre foi para que buscasse informação e soubesse aproveitar as experiências que teria na vida. Ali, construí quem eu sou hoje como pessoa e quem fui dentro das quadras como atleta. Tenho uma história muito importante cheia de ensinamentos e agradeço a todos que contribuíram para isso. Através dessas pessoas, que me deram suporte na vida, fiz minha graduação em engenharia. Vou citar o nome dos técnicos que fizeram parte do início da minha trajetória e ajudaram a construir tudo isso, Antenor Horta e Ruben Mendes.
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Quais ensinamentos você levou das quadras mineiras para a Seleção Brasileira?

Moysés – Do Minas Tênis, ao Colegio Marconi (Maresta), á Escola de Engenharia (Enge-Med, FUME, Universiade), CPOR (Campeonato Sul-Americano Militar) e nas Seleções Mineiras (torneios estaduais, internacionais) Torneio de Mar Del Plata), enfim em todas estas etapas de minha vida, tive a felicidade de ter convivido com Professores, dirigentes, técnicos e companheiros/amigos, apoaiados por torcedores, patrocinadores, mídia, enfim com todo este embasamento técnico cultural, é que me apresentei aos chamamentos da CBB e pude então disputar com um grande número de excepcionais atletas de todo o Brasil, disputar e conseguir um lugar na Seleção Brasileira. Deste período mineiro, levo na minha mente os ensinamentos técnicos e físicos dos técnicos Antenor Horta, Rubem Mendes, Carlos Turner, Helion Vargas, Francisco Cunha, Fernando Grosso, que formaram equipes com atletas de nível de seleção mineira e brasileira, como: Izraeli Blas, Mario Nelson, Betinho, Mauricio Bolão, Paula Motta, Zé Luiz, Leonardo, Nelsinho, Luiz Carlos, Luiz Gustavo, Eduardo Andrade, entre outros.

O que lembra desse momento?

Moysés – Lembro que o nosso técnico Kanela (Togo Renan Soares) sabia como conduzir a equipe. E aquilo realmente nos encantava. Ele esquematizou tudo antes de irmos para a Olimpíada. O nosso pivô Rosa Branca foi condicionado para entrar em quadra e arrebentar naqueles jogos. Ele descobriu a capacidade técnica de todos os atletas e aperfeiçoou cada detalhe que cada jogador podia contribuir dentro de quadra. E difundiu todos esses craques. Lembro perfeitamente de como em todos os jogos nós sabíamos o que fazer.
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O Brasil só perdeu duas vezes na competição: uma para os Estados Unidos e outra para a União Soviética. Qual era a filosofia de vocês em quadra?

Moysés – A seleção foi muito bem preparada pelo Togo Renan Soaes (Kanela), e antes de irmos para Roma fomos disputar os jogos Lusos Brasileiros, em Lisboa. Kanela, técnico reconhecido internacionalmente, extremamente rigoroso, sempre implantou treinamentos em duas etapas por dia, sempre atento no preparo físico e tá- tico, com arremessos, contra-ataques e total atenção com a marcação e nos rebotes. Kanela, sem nenhuma duvida, é o grande responsável pela geração de ouro do basquete do Brasil: selecionou, treinou e dirigiu Amaury, Wlamir, Succar, Jathyr, Vitor,Waldemar,Rosa Branca, Edison, Menon, Ubiratan, Pecente, Valdir, Algodão, Mical, Helio Rubens, Edvar, entre outros. Kanela sempre contava com o apoio da diretoria da CBB, comandada pelo grande presidente Almirante Paulo Meira. Em Roma, o Brasil como campeão mundial em 1959, juntamente com os EUA e a Rússia eram considerados os favoritos ao pódio olímpico. Com 6 vitórias, inclusive sobre a Rússia (58x54), caminhávamos para disputar os jogos finais. Mas, eis que acabamos vivendo uma grande decepção, devido á uma trama política arquitetada entre a Rússia e o Mr. William Jones, presidente da FIBA: transformando a semi-final entre Brasil, Itália, Russia e EUA, em um quadrangular entre estas quatro! Brasil venceu a Itália, e o EUA venceu a URSS. Na véspera da partida contra a Russia, após o Jantar na Vila Olímpica, Kanela, nos reuniu e preparou a equipe para enfrentarmos e ganhar novamente aos soviéticos. Mas na calada desta noite, Mr.Jones fumando seu charuto cubano com dirigentes russos, escalou para apitar Brasil x Rússia, um juiz frágil e sem experiência inter nacional, não deu outra! Este juíz, que nos prejudicou durante toda a partida, faltando seis segundos pro final desta revanche, apitou um lateral, entregou a bola para o Amaury, e este imediatamente a passou para o Wlamir, que iria fazer a cesta e com esta venceríamos a partida e a sonhada medalha de prata. Revertida pelo juiz, a Rússia acabou num arremesso de sorte nos vencendo por 64 a 62.
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Como era a relação da equipe com o técnico Kanela?

Moysés – Ele tinha uma visão excepcional. Atualização, foco e muita garra. Ele nos acordava com o rádio às seis horas da manhã com músicas tranquilas e saudáveis. Falava que precisávamos ter um dia calmo e tranquilo. Ele conhecia não só os seus atletas como também cada um dos nossos adversários. O Kanela não queria saber de pontos e sim de desempenho. Possuía uma sabedoria imensa sobre marcação. Ele era superior em muitas coisas, inclusive no contra-ataque que nos levou à medalha.

Porque a geração de vocês é tão valorizada até hoje e que existiu de tão especial nessa época?

Moyses – Como acima descrevi, tínhamos uma CBB bem estruturada com gestão atingindo os objetivos planejados, e investindo em técnicos, atletas, árbitros, que escolhidos em todo o Brasil, disputavam campeonatos sempre apoiados pelas Federações, clubes, e patrocinadores, com a mídia acompanhando, publicando e transmitindo com controle de qualidade e incentivando a pratica de nosso bola ao cesta. Amantes do basquete que superlotavam os ginásios e incentivavam o aparecimento cada vez mais crescente de ídolos consagrados mundialmente em nossos ginásios esportivos.

Como se sente com o reconhecimento ao seu basquete sendo medalhista olímpico com apenas 23 anos?

Moysés – Muito lisonjeado e feliz por ter tido a oportunidade de conviver com atletas e companheiros do nível de um Amaury, Wlamir, Succar, Jathyr, Vitor, Waldemar, Edison, Rosa Branca, Mosquito, Israeli, Leonardo, Zé Luiz, Paula Motta, entre outros inúmeros e renomados players e ter enfrentado os grandes e renomados clubes e seleções pelo mundo afora. Através do basquete, pratica que me colocou em frente a grandes formadores de atletas e homens, me tornei um engenheiro para a vida profissional, participando da construção e montagem de obras de arte, tais como rodovias, ferrovias, barragens, pontes, plataformas de petróleo, sempre trabalhando em conjunto, com homens, máquinas e desenvolvimento tecnológico.

Como você define a sua trajetória como jogador?

Moysés – Eu cresci dentro do basquete e conquistei uma coisa dentro dele que não se paga, meus amigos. Eles me ensinaram muito, tecnicamente e pessoalmente. Cosia que levei para a vida toda. Então, me defino como um jogador que soube aproveitar todas as oportunidades que tive. Podemos dizer que também tive bastante sorte.
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Na geração de hoje, o que você destacaria de positivo nessas atletas que estão se revelando?

Moysés – Sem dúvida o basquete brasileiro de hoje conta com um grande número de grandes craques de nível nacional e internacional, tais como o Nenê, Leandrinho, Marcelo Huertas e Tiago brilhando na NBA, outros tantos no basquete europeu e sul-americano, e com as Federações estaduais, e os clubes como o Minas Tênis, Pinheiros, Paulistano, Brasilia, Flamengo, Franca, Baurú, entre outros, apoiados pelos Patrocinadores CEF, SKY, AVIANCA, STARBUCS, etc, e com a mídia incentivando campeonatos e competições visando formação e desenvolvimento de atletas. Acredito que a partir da eleição deste grande atleta e empresário de sucesso Guy Peixoto e sua equipe, temos a certeza de que teremos grandes atletas que irão apresentar em quadra, o orgulho que é vestir a camisa gloriosa listrada de tanas histórias e vitórias.

O que você espera dessa nova geração e o que falta para conquistarmos mais uma medalha?

Moysés – Espero que eles continuem na luta, se aprimorando e fazendo o seu trabalho. Nós já temos atletas para uma medalha e agora precisamos de estrutura, de investimento e uma organização. Porque potencial nós já temos. Queremos ver o público aplaudindo os nossos atletas. O basquete vai voltar a fazer aquilo que já fez um dia.

Quais profissionais fizeram parte da sua história?

Vou registrar os grandes ensinamentos técnicos do Antenor Horta, Rubem Mendes, Fernando Grosso,Chico Cunha e Helion Vargas, com os quais pude me desenvolver no esporte, e junto com meus companheiros de equipe, para conquistar os títulos e os ensinamentos para enfrentarmos os desafios da vida.Não posso deixar de citar estes gigantes na arte de nos ensinar a praticar o basquete e enfrentar as batalhas através das quadras pelo mundo, que foram Kanela, Simões, Rui de Freitas, Braz, Brito Cunha, Daiuto, e o Major Covas Pereira. Em Minas Gerais, gostaria de citar os grandes atletas e companheiros na seleção mineira e seleções da CBB, como Izraeli Blas, Mario Nelson, Betinho, Mauricio Bolão, Zé Luiz, Leonardo, Nelsinho, Luiz Carlos e Luiz Gustavo.