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27/07/2017
ENTREVISTA COM PAULO MURILO ALVES IRACEMA

Foto: Divulgação
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Uma figura diferenciada no mundo do basquete brasileiro. Paulo Murilo, um nome que reverenciou as quadras e as salas de aula. Com tantos anos dedicados à modalidade, o craque que além de treinador foi também professor da UFRJ, doutor em Ciências do Desporto, em Lisboa, licenciado em Educação Física pela EEFD/UFRJ e Bacharel em Jornalismo Audiovisual pela ECO/UFRJ. Entre tantas habilidades, Paulo carrega o título de técnico Campeão Brasileiro Feminino Adulto pelo Estado da Guanabara (1966) e também é conhecido por ter marcado época com a equipe do CR Saldanha da Gama (ES) no NBB2 da LNB. Com uma vida inteira dedicada ao esporte da bola laranja, hoje, o professor é editor e fundador do blog Basquete Brasil (www.blog.paulomurilo.com), que possui mais de 1400 artigos técnicos, táticos e didáticos, voltados aos jovens técnicos, jogadores e entusiastas do país, desde 2004.

Como o basquete surgiu na sua vida?

Em 1948, fui apresentado a uma quadra de basquete de terra batida, marcações pintadas no Grajaú Tênis Clube, e aquilo tudo me chamou muita atenção, principalmente a cesta, me encantando pelo fato de ter que acertar a bola naquele pequeno aro. Daí começou o meu interesse pela modalidade. Aproximadamente com 12 ou 13 anos, comecei a praticar esse esporte, porem minha baixa estatura e a falta de tempo não ajudaram muito nessa época, pois estudava muito, o que não me deixou praticá-lo como gostaria. Então, foi quando me interessei pela parte técnica e tática. Lembro-me que a equipe do Sírio, com o grande Rui de Freitas me deixou muito empolgado ao ver a famosa ‘rodinha’ ser praticada, o que me impressionou muito, fazendo com que entrasse de vez no seio do grande jogo.

Todos esses anos atuando como treinador. Como você avalia sua performance?

Trabalhei em grandes clubes, como o Vila Izabel. Flamengo, Vasco, Fluminense, Olaria, fundei e dirigi a Escola Carioca de Basquete, na formação de base e na elite, dirigi seleções masculinas e femininas no Rio e em Brasília, e fundei e idealizei as duas primeiras associações de técnicos do país, a ANATEBA (1971), e a BRASTEBA (1975). Tudo Isso deu frutos e revelou muitos jogadores, congregou muitos técnicos e professores, dando sentido a minha carreira como treinador e professor, por tudo isso me considero um profissional estudioso, batalhador e participativo. Passei em um concurso promovido pela CBB, onde estagiei em várias universidades dos EUA e aprendi muito. Fiquei três meses de norte ao sul da América, viajando de ônibus e trabalhando muito, revelando, com certeza o grande esforço despendido. No retorno, percorri vários estados relatando o que vi, participei e aprendi.

Qual a principal característica como técnico?

Com uma básica característica, a da permanente inovação. Contava sempre com a presença de técnicos em meus jogos, e até treinos, entre eles o colega de turma Ary Vidal, e muitos outros, curiosos pelos métodos de treinamento que desenvolvia, inovações táticas que levavam as equipes que dirigia a excelentes resultados, propiciando aos jogadores a atuarem de forma diferenciada, fluida, onde o improviso e a criatividade estavam sempre presentes. Acredito que seja esta a minha principal característica.

E como professor?

Na UFRJ congreguei muitos técnicos, excedendo minhas funções acadêmicas. Em 1971, no Mundia Feminino em São Paulo, dei a ideia de fundar a Associação Nacional de Técnicos do Basquetebol (ANATEBA), que foi primeira da América do Sul e segunda do mundo, a NABC americana foi a primeira em 1926. Dois anos depois fomos privados de continuar aquele trabalho. Tive a honra de participar e atuar nas duas primeiras associações de técnicos do Brasil. Outra dura conquista foi o doutorado em Ciências do Desporto na FMH/UTL de Lisboa em 1992 aos 52 anos, com a tese “Estudo sobre um efetivo controle da direção do lançamento com uma das mãos no basquetebol”, inédita e até hoje não ultrapassada no mundo, provando que até no ambiente acadêmico me mantive ligado e fiel a modalidade. Sempre estive junto ao jogo que escolhi para ensinar e desenvolver.

Além de comandar as quadras, você comanda o seu blog intitulado ‘Basquete Brasil’. Conte um pouco sobre essa experiência.

Sempre dando palestras, divulgando e ensinando a ensinar, que era minha tarefa, no Departamento de Didática da FE/UFRJ por mais de 30 anos, quando me aposentei e dei continuidade aos meus horários acadêmicos dedicando-os à esse blog, nascido há 14 anos atrás. A proposta é dar continuidade ao desenvolvimento e soerguimento do basquetebol brasileiro.

Além, do basquete e das salas de de aula, existe alguma outra paixão?

Sim, eu sempre fui um bom fotógrafo. Financiei muito dos meus estudos com a fotografia e a cinematografia. Fui o primeiro professor desportivo do país a desenvolver metodologias de filmagem nas modalidades basquetebol, vôlei e natação. Mas sempre me mantendo fiel ao basquetebol.

Você dirigiu o CR Saldanha no NBB2. Como foi essa experiência?

Com 70 anos fui convidado para dirigir essa equipe. Fizemos um trabalho digno e mais uma vez inovador, que deveria ter sido continuado sem a menor dúvida. Era a única equipe que jogava de uma forma diferenciada das demais, que atuavam no sistema único. Não o fiz para provar que éramos melhores, mas sim para mostrar que havia outras maneiras de se jogar basquetebol. Isso teria desenvolvido muito a nossa capacidade organizacional e tática se tivesse tido continuidade, mas não deixaram.

O que espera dessa nova gestão da CBB?

Quatro anos atrás tive o prazer de receber em minha casa o Carlos Fontenelle e o Alcir Magalhães, quando discutimos e dialogamos sobre a reestruturação do basquetebol brasileiro. Falamos da Escola Nacional de Treinadores até a inadiável e estratégica formação de base, que é a chave do sucesso de toda a entidade que lidere uma atividade esportiva. Constatei com grande prazer que nessa nova administração muito daquele projeto foi referenciado e aprimorado. Minha expectativa é que mudem para valer. Tem muita gente boa nesse país, muito profissional capacitado, e quanto mais vividos e experientes forem os técnicos, melhores serão nossos resultados. Nossos jovens precisam ser liderados por pessoas que erram muito, muito pouco, garantia de resultados muito mais consistentes e duradouros. Basquetebol sério e competitivo não é seara para quem gosta, e sei para quem realmente o entende e domina, principalmente na arte de ensiná-lo como deve ensinado.