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19/07/2017
ENTREVISTA: NORMA PINTO DE OLIVEIRA, NORMINHA

Foto: Divulgação/CBB
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Considerada uma das melhores jogadoras de todos os tempos, Norma Pinto de Oliveira é um dos grandes destaques do basquete feminino brasileiro. Norminha, como é conhecida, nasceu na Argentina, mas veio para o Brasil com treze anos onde descobriu o prazer do esporte. Naturalizou-se brasileira para poder jogar na seleção. A armadora, fez parte, junto com nomes como Maria Helena, Heleninha, Nilza, Marlene entre outras, de uma vitoriosa geração do basquete do Brasil. Entre suas principais conquistas estão seis títulos sul-americanos (Brasil - 1965, Colômbia - 1967, Chile - 1968, Equador - 1970, Peru - 1972 e Bolívia - 1974), medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de São Paulo (Brasil - 1963), medalha de ouro dos Jogos Pan-Americanos (Winnipeg-1967 e Cali – 1971), 5º lugar no Mundial do Peru (1964), medalha de bronze no Mundial do Brasil (1971) e 4º lugar nos Jogos Pan-Americanos da Cidade do México (México - 1975). Ao todo, Norminha participou de oito sul-americanos, quatro Jogos Pan-Americanos e quatro Mundiais em 20 anos de seleção brasileira. Com tantas conquistas no currículo e dona de um talento incomparável, Norminha foi considerada em uma eleição internacional realizada em 2000, uma das cinco melhores jogadoras do século.

Você fez parte de uma geração de ouro da seleção brasileira. Fale um pouco sobre essa trajetória.

Fomos uma geração dos anos 1959 até 1979. Posso dizer que foi um período sofrido, a CBB fazia o que podia para representarmos bem o Brasil. Sempre trabalhamos muito, e apesar de não sermos uma equipe muito alta, tínhamos uma vontade de vencer e uma garra sensacional. Foi uma geração realmente vencedora, representamos muito bem o Brasil no basquete numa época em que o país comemorava os títulos da Copa do Mundo. Tivemos participação importante no fortalecimento do basquete feminino no mundo. Depois de vencer o Pan-Americano de 1967, fizemos partidas com a seleção tcheca a convite da FIBA para que avaliasse a inclusão da modalidade na Olimpíada, o que aconteceu em 1976.

Quais os momentos mais emocionantes de sua carreira?

Foram vários. Primeiro a minha naturalização para poder jogar na Seleção. Acho que a grande conquista da minha geração foi o bicampeonato pan-americano, em 1967, em Winnipeg, e em 1971, em Cali. O segundo título então foi sensacional, pois o masculino também venceu. Foi à glória para o nosso país. O Pan era uma competição muito difícil e desgastante, era turno e returno e enfrentávamos equipes altas como Estados Unidos, Canadá e Cuba, além da Venezuela, que tinha um bom time na época. A medalha de bronze no Mundial do Brasil, em 1971 também foi inesquecível. Quando fui considerada entre as cinco melhores do mundo, no Peru.

Como foi disputar o Mundial do Brasil, em 1971?

Sensacional. O basquete feminino não era muito reconhecido e apenas um canal de TV, a Gazeta, se interessou em transmitir. O campeonato foi um sucesso, ginásio lotado em todas as partidas, fomos vencendo os jogos e avançando na competição. Os canais de televisão acabaram comprando os direitos da Gazeta, que ganhou a maior grana e até trocou os equipamentos. A gente não estava acostumada com público. Na estreia contra França, eu vi o ginásio lotado e fiquei morrendo de vergonha de jogar na frente de tantas pessoas. Era fantástico ouvir os torcedores gritando e cantando a música da Copa do Mundo de 70, que tinha sido meses antes. A disputa da medalha foi maravilhosa. Quinze mil expectadores lotaram o Ibirapuera e cinco mil ficaram do lado de fora. Ao entrar na quadra, eu não sabia se me aquecia ou se voltava para o vestiário. Foi a primeira vez na vida que vi tanta gente prestigiando a Seleção Feminina. Posso dizer que me senti uma rainha.

Você trabalha com basquete até hoje.

Eu estou aposentada, mas não parei de trabalhar, muito menos de me dedicar ao esporte e à educação. Sou professora ha 30 anos do Curso de Educação Física da UNIFMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), onde também faço práticas pedagógicas na área de Educação Física. Sempre fui muito dinâmica e gosto de praticar atividades físicas, acho que vai ser difícil parar. Com isso me reciclo e estou sempre a par do que o basquetebol me proporciona.

Como era o estilo de jogo na sua geração?

O estilo era diferente. Porque éramos baixas em relação às adversarias. Porem marcávamos, defendíamos muito muito e nos conhecíamos bastante. A habilidade técnica, a parte defensiva e o condicionamento físico que nós recebíamos fizeram com que tivéssemos os nossos títulos.

Qual é sua expectativa com relação a atual Seleção Brasileira Feminina?

Nós tivemos uma época gloriosa, assim que parei de jogar, que foi a próxima geração, com Hortência e Paula. Com o passar dos anos tivemos problemas políticos e consequentemente uma queda nos patrocínios. Elas foram providas com todas as condições que não tivemos, como planejamento, estrutura e outras cosias a mais. Espero que haja essa renovação que todos nós esperamos. E o mais importante, que a base seja bem trabalhada, que só assim teremos capacidade de representar novamente o Brasil. Sabemos que é um trabalho de formiguinha, anos de trabalho e dedicação, mas tenho certeza que chegaremos lá novamente. Ainda estarei viva para ver uma seleção brasileira conquistar tudo que merece.

Sobre a nova Gestão da CBB. Gostaria que falasse um pouco sobre as expectativas.

O Guy é um cara que tem experiência em gestão e administração. E o primeiro passo foi retirar essa suspensão, que era muito importante para nossa modalidade. Tenho certeza que ele vai fazer um trabalho maravilhoso, pois é uma pessoa conhecida, e que tem amigos dentro do basquetebol brasileiro. Acredito nessa nova gestão, e tenho certeza que vai iniciar um novo clico no basquete. Com isso, ele vai inovar e dar impulso no basquete feminino, e vai dar oportunidade para os atletas que merecem essa atenção. Em um período bem curto, vamos retomar nosso lugar do basquete. O Brasil tem capacidade e jogadores, mas nos últimos anos vivemos momento de terror. Ele veio pra ajudar a Confederação se reerguer e limpar essa mancha e o prejuízo que fizeram com o nosso esporte.