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24/03/2017
ENTREVISTA COM O MEDALHISTA OLÍMPICO MOYSÉS BLÁS

Foto: Divulgação / CBB
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Ele carrega o orgulho de ser o primeiro medalhista olímpico de Minas Gerais. O ex-ala-armador Moysés Blás fez parte da campanha da Seleção Brasileira que subiu ao pódio e coroou a maior e mais vencedora geração do basquete masculino no Brasil. No dia em que completa 80 anos, Moysés relembra momentos históricos da campanha que rendeu a medalha de bronze para o Brasil nas Olimpíadas de Roma, em 1960.

Como foi a sua trajetória no Minas Tênis Clube?
Moysés – A minha vida toda foi dentro no Minas Tênis. Migrei do vôlei para o basquete e aos 13 anos iniciei no infantil. Passei por técnicos que me orientaram muito em quadra e fora delas. A orientação sempre foi para que buscasse informação e soubesse aproveitar as experiências que teria na vida. Ali, construí quem eu sou hoje como pessoa e quem fui dentro das quadras como atleta. Tenho uma história muito importante cheia de ensinamentos e agradeço a todos que contribuíram para isso. Através dessas pessoas, que me deram suporte na vida, fiz minha graduação em engenharia. Vou citar o nome dos técnicos que fizeram parte do início da minha trajetória e ajudaram a construir tudo isso, Antenor Horta e Ruben Mendes.

Quais ensinamentos você levou das quadras mineiras para a Seleção Brasileira?
Moysés – Muitos técnicos ajudaram a ser quem eu fui. Porém, em Minas Gerais, sempre tivemos bons clubes e bons atletas. Através disso tudo, ouvi todos aqueles que tive como exemplo, estudei, me informei sobre a modalidade e procurei aperfeiçoar o meu basquete. Com base nos treinamentos e nos campeonatos, fui adquirindo informações. E isso tudo foi o que me levou até à Seleção Brasileira. Chegando lá, procurei colocar tudo aquilo que vivi em prática. Aprendi muito também e usei todas as técnicas que tinha carregado até ali.

O que lembra desse momento?
Moysés – Lembro que o nosso técnico Kanela (Togo Renan Soares) sabia como conduzir a equipe. E aquilo realmente nos encantava. Ele esquematizou tudo antes de irmos para a Olimpíada. O nosso pivô Rosa Branca foi condicionado para entrar em quadra e arrebentar naqueles jogos. Ele descobriu a capacidade técnica de todos os atletas e aperfeiçoou cada detalhe que cada jogador podia contribuir dentro de quadra. E difundiu todos esses craques. Lembro perfeitamente de como em todos os jogos nós sabíamos o que fazer.

O Brasil só perdeu duas vezes na competição: uma para os Estados Unidos e outra para a União Soviética. Qual era a filosofia de vocês em quadra?
Moysés – Essa é uma das passagens que mais irritam os jogadores que estiveram naquele momento. Por uma pressão politica, a forma de disputa sofreu uma alteração inesperada. Nós iriamos para a final, mas voltamos a jogar contra a União Soviética e perdemos no segundo jogo. A arbitragem também não favoreceu o que entristeceu muito nossa equipe. Amaury Passos e Wlamir Marques tiveram um grande passo anulado e infelizmente perdemos o jogo. Uma história triste, mas podemos dizer que realmente a medalha de bronze teve sabor de prata. Foi uma passagem negativa, porém, esse momento está guardado em nossos corações com muito carinho.

Como era a relação da equipe com o técnico Kanela?
Moysés – Ele tinha uma visão excepcional. Atualização, foco e muita garra. Ele nos acordava com o rádio às seis horas da manhã com músicas tranquilas e saudáveis. Falava que precisávamos ter um dia calmo e tranquilo. Ele conhecia não só os seus atletas como também cada um dos nossos adversários. O Kanela não queria saber de pontos e sim de desempenho. Possuía uma sabedoria imensa sobre marcação. Ele era superior em muitas coisas, inclusive no contra-ataque que nos levou à medalha.

Quais profissionais fizeram parte da sua história?
Vou registrar os grandes ensinamentos técnicos do Antenor Horta, Rubem Mendes, Fernando Grosso,Chico Cunha e Helion Vargas, com os quais pude me desenvolver no esporte, e junto com meus companheiros de equipe, para conquistar os títulos e os ensinamentos para enfrentarmos os desafios da vida.Não posso deixar de citar estes gigantes na arte de nos ensinar a praticar o basquete e enfrentar as batalhas através das quadras pelo mundo, que foram Kanela, Simões, Rui de Freitas, Braz, Brito Cunha, Daiuto, e o Major Covas Pereira. Em Minas Gerais, gostaria de citar os grandes atletas e companheiros na seleção mineira e seleções da CBB, como Izraeli Blas, Mario Nelson, Betinho, Mauricio Bolão, Zé Luiz, Leonardo, Nelsinho, Luiz Carlos e Luiz Gustavo.

Porque a geração de vocês é tão valorizada até hoje e que existiu de tão especial nessa época?
Moyses – Tínhamos uma CBB, bem administrada e com recursos aplicados por dirigentes competentes, com apoio dos atletas e técnicos, patrocinadores, e a mídia acompanhando e informando com clareza os resultados que eram alcançados. Nos ginásios, sempre com lotação esgotada, o público acompanhava as disputadas partidas e seus ídolos em numero cada vez mais crescente. Uma das coisas que chamamos de brilhantismo foram os rebotes. Tivemos muita inteligência em quadra, o preparo físico nos ajudou e nos consagrou. Controle de bola, armação em quadra, bons arremessos, um lista de fatores positivos que tivemos nos tornou especial. Mas sempre com respeito à todas as equipes adversárias. O conjunto foi nossa arma principal. Éramos um time, uma equipe unida e favorecida pelos talentos.

Como se sente com o reconhecimento ao seu basquete sendo medalhista olímpico com apenas 23 anos?
Moysés – Muito lisonjeado e feliz de poder ter conhecido e jogado contra as melhores equipes do mundo e tendo ao lado companheiros e amigos do nível de um Amaury, Wlamir, Succar, Jathyr, Vitor, Waldemar, Mosquito, entre outros tantos renomados jogadores. Na prática do basquete, fui sempre orientado e treinado por técnicos, como o Kanela, Simões, Antenor, que ainda hoje aplico na minha agenda profissional, que são o foco, determinação e muito treino e permanente atualização técnica.

Como você define a sua trajetória como jogador?
Moysés – Cresci dentro do Minas Tênis Clube e nos torneios que participei e no basquete alem das vitórias, derrotas, alegrias e tristezas conquistei uma infinidade de amigos e como jogador aprendi que o tempo é irrecuperável quando perdido de maneira leviana. Então, sempre procurei atacar com fibra, conhecimento e inteligência as oportunidades que me apareceram e sempre contando com uma dose de sorte. Gosto de uma frase e gostaria de citar: “A VIDA é aquilo que acontece, enquanto fazemos planos para o Futuro".

Na geração de hoje, o que você destacaria de positivo nessas atletas que estão se revelando?
Moysés – Hoje podemos falar que temos um número bem bacana de brasileiros no exterior. Isso é positivo demais para o nosso cenário. Temos muitos craques no nosso basquete e estamos caminhando para propiciar ainda mais uma estrutura esportiva para esses atletas que, heroicamente, representam a camisa do seu clube e da Seleção.

O que você espera dessa nova geração e o que falta para conquistarmos mais uma medalha?
Moysés – Espero que eles continuem na luta, se aprimorando e fazendo o seu trabalho. Nós já temos atletas para uma medalha e agora precisamos de estrutura, de investimento e uma organização. Porque potencial nós já temos. Queremos ver o público aplaudindo os nossos atletas. O basquete vai voltar a fazer aquilo que já fez um dia.